Admirando Kazuo Ohno

Kazuo Ohno foi o dançarino de butoh mais conhecido mundialmente. Ao lado do mentor e criador do butoh Tatsumi Hijikata, foi um dos pilares fundadores do butoh. Movimento artístico underground nascido em fins dos anos 50 no Japão, época marcada por sentimento de revolta dos japoneses contra a ocupação americana, nasce o “ankoku-butoh”, a dança das trevas, dança do erotismo e da violência, experimentos com os limites do corpo, uma total subversão da idéia da dança. Não era uma dança como nos moldes do ballet clássico, corpos longelíneos, feitos de leveza e beleza, próprios para corpos ocidentais. E sim o peso da existência formado pelo caráter e corpo do japonês, longe da estética da dança contemporânea tradicional, causou desconforto na visão mais ortodoxa e abriu uma nova forma de criar a dança. Dizia Hijikata sobre o butoh, um “cadáver ereto arriscando a própria vida”.

Kazuo Ohno e o butoh só se tornaram conhecidos no Brasil em 1986 quando de sua primeira turnê pela América Latina no cone sul, passou pelas cidades de São Paulo, Brasília e Buenos Aires arrebatando platéias e o meio das artes cênicas brasileiras com sua extraordinária dança. E aqui faço um parênteses, para falar um pouco da memória de nossa dança: os responsáveis por tal empreitada o trio de artistas-produtores Takao Kusuno, Felicia Ogawa e Ameir Barbosa, com o apoio de Antunes Filho e Ruth Escobar. Nesse período o butoh já era conhecido na Europa e nos EUA como uma importante linguagem artística. Mas de pouco conhecimento dos artistas brasileiros. Apenas os próprios Antunes, Ruth e Naum Alves de Souza viram, quando Ohno mostrou pela primeira vez fora do Japão em 1980 no Festival Internacional de Teatro de Nancy sua obra-prima Admirando La Argentina. Esta obra foi inspirada na dançarina de flamenco Antonia Mercé ou “La Argentina”, seu pseudônimo, quando ele a viu pela primeira vez em 1929 no Teatro Imperial em Tókio, ainda como aluno de educação física. Com certeza La Argentina marcou-o profundamente, pois que 50 anos mais tarde, em idade madura, aos 73 anos, ele mesmo se transfiguraria, louvando-a em cena. Decidiu que teria que dançar sobrepondo vida e morte simultaneamente.

Não tive esta primeira oportunidade de prestigiar sua dança, pois ainda jovem e inexperiente na época me ocupava em fazer ballet clássico e moderno. Somente em 1991 após ter conhecido os que passaram a ser meus mestres na dança, o diretor Takao Kusuno, ao lado de sua parceira de criação Felicia Ogawa, e do dançarino Denilto Gomes tive o privilegio de acompanhar de perto as outras vindas de Kazuo Ohno e começar a me aprofundar nesta expressão artística completamente diversa da dança que se fazia, ao olhar as memórias do corpo, os aspectos da alma humana e levar o corpo ao estado de metamorfose, e não às metáforas representativas. “Isto não é coreografia”, costumava nos dizer Takao. Dizia ele que o butoh é a reflexão do corpo sobre o próprio corpo, uma constante luta consigo mesmo, e que se faz necessário o princípio da severidade aplicado ao corpo, isto é, uma ação rigorosa no corpo que propicie o crescimento do praticante. Butoh é uma filosofia de vida e trabalho que não se resolve em sala de aula. Cabe mais uma vez pontuar na memória da dança, Takao introduzia esta expressão artística nas Artes Cênicas no Brasil já em 1977. Evidentemente influenciou diversos artistas brasileiros, com Denilto Gomes sendo seu maior intérprete, pois que ele trazia em sua dança transformações verdadeiras em uma busca de um caminho pessoal e singular, a tal ponto no dizer de Takao ser ele o “Nijinsky brasileiro”. Já que a arte de dançar é efêmera só quem testemunhou guardou a experiência. Então escrever e registrar são formas para preservar a memória. Mas nunca poderão alcançar a magnitude do evento.

Kazuo Ohno foi o dançarino mais velho do mundo. A última vez que o vi dançando magistralmente foi com 90 anos nos palcos do Teatro SESC Anchieta em 1997. Ele nasceu em 1906 e faleceu em 2010 aos 103 anos, em sua juventude foi inicialmente professor de educação física, foi para frentes de batalhas no norte da China e em várias linhas de frente em Nova Guiné durante a Segunda Grande Guerra, tornou-se tenente e depois capitão, estudou e depois lecionou dança, atravessou o século passado inteiro e o inicio deste milênio. O que viveu este homem! Certa vez Takao disse para seus dançarinos, e aqui me incluo, faltava-nos experiência de vida para fazer butoh. Então penso que quanto mais velho se fica, mais substancial se torna o corpo. E aqui fica outra admiração, quando o dançarino está pronto é na sua velhice, o espírito fala mais alto, sua sabedoria, as marcas da vida, está tudo no corpo. Entretanto este feito não é para qualquer um. O butoh não é uma dança espontânea que nasce só de sentimentos, exige uma prática, um treinamento árduo do corpo, de superação e resistência constantes. E Kazuo Ohno foi exemplar e único. Com sua arte transportou-nos ao mundo dos vivos e dos mortos. Aprendemos que as raízes que sustentam o butoh são a própria vida e o espírito.

Participei de dois encontros com Kazuo Ohno quando fui ao Japão. A primeira vez com a ida da Cia. Tamanduá de Dança Teatro em 2003, um tributo ao nosso diretor, uma viagem de volta à sua terra natal, simbolizava o fechamento de um ciclo, nos despedíamos dos pertences da cia., os adereços cênicos do espetáculo O Olho do Tamanduá apresentado no Japão foram deixados no estúdio de Ohno em Yokohama como um presente. Não é preciso dizer que estávamos sensibilizados com a dor do encerramento da cia. e pela ausência de nosso diretor, mas ver Ohno na cadeira de rodas, impossibilitado de dançar e dar aulas arrasou-nos. Ele dançava com as mãos, ou assim queríamos crer que o fazia. As suas grandes mãos que um dia tornaram-se poemas, ora ligeiras como um pianista, ora suaves como o vôo das borboletas, não falavam mais. Sempre estava acompanhado de seu filho Yoshito Ohno que continua a receber alunos do mundo todo transmitindo agora seus próprios ensinamentos. Todos, alunos e discípulos, dispensavam um grande carinho e imenso respeito pelo mestre. Seu pequeno estúdio exalava criação, e acomodou os integrantes da cia., onde dançamos com os discípulos. Pois bem a segunda vez aconteceu em 2005, com minha participação no elenco de Antunes Filho, o Grupo de Teatro Macunaíma, no espetáculo Foi Carmen Miranda, uma homenagem do diretor ao centenário de aniversario do mestre em Yokohama. Ainda assim na cadeira de rodas levado pelo inseparável filho Yoshito, carregava uma rosa vermelha colada no corpo, ele já estava quase cego. Sua presença no palco ao final da apresentação causou comoção na equipe e principalmente em Antunes Filho. Naquele momento eu presenciei um encontro de despedida entre estes mestres ao som final do samba que encerrava nosso espetáculo. Um misto de alegria e dor.

Kazuo Ohno cumpriu os desígnios de sua vida marcando uma época. Com seu butoh nos palcos do mundo mostrou a maestria de sua dança, um caminho singular, único e inovador. “De maneira nenhuma pode-se dizer que não haja nada num palco vazio, num palco que se pise de improviso. Pelo contrário, existe ali, um mundo transbordante de coisas. Ou melhor, é como se do nada surgisse uma infinidade de coisas e de acontecimentos, sem que se saiba como e quando” (texto Palavras de Aprendizagem-programa temporada Brasil –Japão-Argentina Kazuo Ohno – abril de 1986).

Novembro de 2011

Fontes de consulta:
Texto de Akiko Ohara, diretora e coreógrafa do Ballet de Yuba, da Comunidade Yuba em Mirandópolis – SP (06 de Maio de 2007)
Programa Temporada Brasil -Argentina Kazuo Ohno – abril de 1986
Catálogo Vestígios do Butô – Homenagem a Takao Kusuno – setembro de 2003
Kazuo Ohno’s World – from without & within, Kazuo Ohno & Yoshito Ohno, 2004