Homenagem a Takao Kusuno

Takao Kusuno. Foto: Lenise Pinheiro

Takao Kusuno. Foto: Lenise Pinheiro

Desde sua chegada em 1977 Takao Kusuno amou as terras brasileiras; casou-se com Felicia Ogawa, uma nipo-brasileira, sua grande companheira de vida e da criação artística. Em seus trabalhos incorporou os elementos de nossa cultura, bem como os elementos da natureza – o homem visto em seu meio ambiente natural e em sua totalidade – visão própria da cultura japonesa, que Takao parece ter mantido como intenção básica: integrou culturas, realidades e gente do Brasil e do Japão. Para tanto incentivou todos aqueles que por ele passaram na busca de uma linguagem própria, na busca de uma identidade cultural, em um caminho onde a vida não se separa da arte.

Takao foi um artista completo. Com ele pude apreender, ao longo de 10 anos de convivência e diversos trabalhos realizados sob sua direção, a maestria de seu olhar como criador: na construção do corpo junto ao dançarino; na maneira como concebia sua iluminação: a luz que perfura os espaços de escuridão para desvendar e revelar a imagem e sua ação dramática; sua concepção de trilha sonora, pesquisa detalhada dos sons do ambiente e fusão com músicas de compositores. Trouxe também a noção do espaço cênico em sua tridimensionalidade: os universos da luz, do som e do tempo, elos da linguagem coreográfica.

Takao pensava que o dançarino deveria construir sua própria filosofia de vida e trabalho. Também dizia ser o butôuma reflexão do corpo sobre o próprio corpo, e que era necessário aos dançarinos desenvolver shugyô, que, em português, significa severidade, ou, como denominou Kazuo Ohno, keiko (treino). Shugyô constitui uma inflição ao corpo de uma ação rigorosa que propicia o crescimento espiritual do praticante. É preciso incitar, provocar o corpo para a superação de seus limites corpóreo-físicos, pois assim algo verdadeiro e interno nasceria e seria revelado no corpo que dança.

Em seu trabalho como diretor, Takao sugeria, indicava detalhes da cena e do corpo: um gesto de mãos e dedos, a direção de um olhar, uma imagem, o delinear dos braços ou pernas, ou mesmo uma postura corporal. Aliado a isto, trouxe-nos novos conceitos da dança japonesa como o ma – um conceito inusitado de tempo-espaço – bem como a dança cerimonial, dentre tantas outras noções. Retirava os excessos, por assim dizer, em busca daquilo que poderia ser traduzido como uma síntese, o essencial. E nós prosseguíamos, enquanto artesãos de nossos corpos, partilhando do conhecimento, recriando a vida em nós mesmos, confeccionando nossos figurinos – objetos que não deveriam ser estranhos ao nosso universo poético – na criação de nossas danças.

Dentro desta filosofia apresentada por Takao adotei como base corporal, modo advindo de seus ensinamentos, o treino do suriashi (deslizar com os pés): trata-se de um caminhar que difere do caminhar natural (com quadril baixo e joelhos flexionados deslizando no espaço), uma maneira de caminhar que possibilita atingir um estado interiorizado, como um corpo receptor de infinitos sentimentos. Também tomei como prerrogativa para meu trabalho artístico e poético o “treino das imagens”, para ele o “sonho do espírito”: através das imagens inspiradas nas mais variadas propostas, o artista deve ter como meta transfigurá-las no corpo. Este treino aplicado ao corpo, somado ao exercício de improvisação com temas sugeridos ou suscitados diariamente, têm como intuito recriar um modo de ser deste corpo.

Considero muito difícil escrever sobre um artista que tanto me influenciou, melhor seria dançar… Se a raiz do butô é sua relação com o eterno, algo circular onde vida e morte andam juntas, como concebeu Takao, considero-o vivo dentro e fora de mim: no meu gesto individual, em minha dança compartilhada com o mundo.