
Foto: Bob Sousa
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Em O Teatro e a Peste, montagem da Turma 75 da Escola de Arte Dramática apresentada no TUSP como parte das celebrações dos 60 anos da ECA-USP, Rogério Tarifa realiza uma operação cênica que encontra no espaço sua principal ferramenta dramatúrgica. Mais do que encenar o célebre texto de Antonin Artaud, escrito em 1933 e transformado aqui em um ato-espetáculo musical, a montagem procura materializar visualmente uma das ideias centrais do pensador francês: a busca pelo duplo. O texto é apresentado como um coro de vozes, corpos e imagens que desloca a conferência para uma experiência coletiva de percepção e reconhecimento.
A primeira imagem proposta ao espectador já revela a inteligência da encenação. Duas arquibancadas posicionadas frente a frente substituem a tradicional divisão entre palco e plateia. De um lado, os artistas. Do outro, o público. Entre eles, um corredor central que funciona como território de passagem, rito e contaminação. Essa escolha espacial ultrapassa a dimensão cenográfica para tornar-se a própria dramaturgia visual da obra. Não há mais a segurança do anonimato na escuridão da plateia. Todos passam a integrar a cena. Quem observa também é observado.
Nesse dispositivo, a montagem encontra uma tradução contemporânea para o conceito artaudiano do duplo. O espelho não surge como objeto, mas como relação. O espectador encontra fragmentos de si nos rostos, reações e presenças que o observam do outro lado da arquibancada. A visualidade constrói-se menos pela representação e mais pela reciprocidade do olhar. O teatro deixa de ser um lugar de contemplação para tornar-se um espaço de confronto sensível.
A direção de arte de Rogério Tarifa compreende que a imagem teatral não reside apenas nos elementos materiais da cena, mas na organização das relações entre corpos, espaço e percepção. O corredor central transforma-se em uma espécie de eixo ritualístico por onde transitam as energias da encenação. Cada deslocamento reorganiza a composição visual. Cada aproximação produz novas camadas de sentido. O espaço parece respirar juntamente com os intérpretes, gerando imagens transitórias que se desfazem e se recompõem continuamente.
Essa experiência é potencializada pela direção musical e pelas composições de Fernanda Maia, executada ao vivo ao lado de Tom Freire. Ao musicar integralmente o texto de Artaud, a artista desloca a palavra para um campo sensorial onde significado e sonoridade tornam-se indissociáveis. O pensamento do autor francês deixa de ser apenas discurso para transformar-se em matéria vibrante. As vozes do coro atravessam o espaço como ondas de propagação, estabelecendo uma dinâmica de contágio que dialoga diretamente com a metáfora da peste. Não se trata da doença em seu aspecto destrutivo, mas da circulação de afetos, impulsos e estados de percepção.
A música opera como uma arquitetura invisível que conecta todos os elementos da cena. As vozes atravessam o corredor central, reverberam entre as arquibancadas e criam uma paisagem sonora que envolve artistas e espectadores em uma mesma experiência coletiva. O coro assume a função de organismo vivo, dissolvendo individualidades em favor de uma presença comum.
A direção de movimento de Emilie Sugai amplia essa dimensão ao transformar os corpos em extensões visíveis da composição musical. Os intérpretes desenham imagens em constante mutação, como uma paisagem viva em permanente estado de transformação. Aproximações, dispersões, alinhamentos e rupturas organizam uma coreografia coletiva que evita qualquer ilustração literal do texto. O movimento produz pensamento visual. O coro converte-se em matéria plástica, ora apresentando-se como massa compacta, quase informe, ora revelando singularidades que emergem desse terreno comum. No derradeiro ato a cena parece sugerir que da lama nasce uma flor: dos corpos reunidos em uma matéria densa e ancestral surgem figuras, gestos e presenças que afirmam a possibilidade de renovação. A imagem da cura, proposta pela encenação, encontra nesse processo uma de suas expressões mais delicadas.
É justamente nessa articulação entre música e movimento que a montagem encontra uma de suas maiores forças. Som e corpo constroem uma dramaturgia visual baseada na circulação. Nada permanece fixo. As imagens surgem do fluxo, florescem e desaparecem para dar lugar a novas formas. A cena assume uma qualidade orgânica que remete às próprias formulações de Artaud sobre um teatro capaz de atingir o espectador por vias sensoriais antes mesmo da racionalidade. Nesse organismo coletivo, a transformação não é apenas tema, mas experiência visual concreta: da escuridão à luz, do caos à composição, da lama à flor.
A iluminação de Marisa Bentivenga desempenha papel decisivo nesse processo. Sua criação compreende a natureza relacional da encenação e evita transformar a luz em mero instrumento de destaque ou ornamentação. Ao contrário, a iluminação modela os espaços de visibilidade e invisibilidade que estruturam a experiência do espetáculo. Os feixes luminosos recortam o corredor central, revelam a materialidade dos corpos e, ao mesmo tempo, preservam a percepção dos rostos que ocupam as arquibancadas. Dessa forma, a luz não separa artistas e espectadores; ela os integra em uma mesma composição visual. Há momentos em que a iluminação produz verdadeiros campos de reflexão, intensificando a sensação de espelhamento que orienta toda a encenação. A luz torna-se uma matéria dramatúrgica que organiza a circulação dos olhares e reforça a ideia de que todos os presentes compartilham a mesma paisagem cênica.
Um dos méritos mais evidentes está na extraordinária coesão de seu elenco. Formado por Alía Martins, Allana Maria, Antonio Tavares Neto, Gabriel Franco, Giovana Leonel, Iraci Estrela, Jhenifer Delphino, Lilian Alves, Lilith Cristina, Max Velloso, May Oliveira, Maya de Paiva, Pedro Severino, Rafael Custódio, Stephanie Barros, Tayane Araújo e Vitor Rossetto, o grupo constrói uma presença coletiva vigorosa, na qual as individualidades não desaparecem, mas se colocam a serviço de uma criação comum. A entrega física, vocal e emocional dos intérpretes sustenta a intensidade ritualística da encenação, revelando um conjunto que compreende profundamente a importância da escuta, da parceria e da ocupação compartilhada do espaço. O resultado é um coro vivo e pulsante, capaz de transformar a cena em um organismo único, onde cada gesto e cada voz contribuem para a força poética e sensorial do espetáculo.
O Teatro e a Peste confirma a potência do pensamento de Artaud quando deslocado para questões contemporâneas da presença e da percepção. Rogério Tarifa não procura ilustrar conceitos do autor francês, mas criar condições para que eles sejam experimentados. A visualidade do espetáculo nasce justamente dessa escolha. Ela não está concentrada em uma cenografia monumental ou em imagens espetaculares isoladas, mas na construção de um sistema de relações onde cada corpo, cada voz, cada feixe de luz e cada olhar participam da criação de sentido.
Ao assumir a perspectiva da cura como eixo de leitura para o texto de Artaud, a obra desloca a metáfora do contágio para um território de reconstrução coletiva. Em cena, vozes, corpos e presenças historicamente silenciadas encontram espaço para existir, cantar e produzir novas narrativas sobre si mesmas. A montagem reafirma o teatro como lugar de escuta, memória e transformação, onde diferentes experiências podem emergir sem a necessidade de se adequar a modelos hegemônicos de representação. Para essa nova geração de artistas da EAD, a cura parece residir justamente na possibilidade de ocupar a cena como espaço de criação de futuros, fazendo do encontro entre arte, diversidade e comunidade um gesto de resistência e reinvenção.
O resultado é uma experiência rara, em que a cena devolve ao espectador sua própria imagem. Diante da arquibancada oposta, observando e sendo observado, ele descobre que o duplo procurado por Artaud talvez não habite o palco, mas o espaço de encontro que o teatro ainda é capaz de produzir com a potência de seu próprio fogo.
Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).