Para Denilto

Foi Denilto quem me preparou corporalmente para integrar o espetáculo “Canção da Terra” em 1991 sob direção do Takao, uma vez que este se encontrava doente. Lá devia dançar a cena “o pagador de promessas” e Denilto ajudou-me a desconstruir meu rosto e meu corpo para algo “torto e feio”. Eu tinha que apagar do meu corpo tudo aquilo que entendia como dança até então. Não foi fácil, pois deveria me despir também da minha auto-imagem. Esta foi a primeira incursão nesta nova linguagem corporal que se apresentava para mim. Lembro-me que seguia Denilto como a um segundo mestre, depois de Takao, pois com Denilto nosso “diálogo” era entendido pelo trabalho dos corpos.

Denilto com sua generosidade aceitou-me como aprendiz após a ida do casal ao Japão. Foram momentos de muita troca e passei a conviver e acompanhá-lo em seus solos “Serra dos Órgãos” operando a trilha sonora e freqüentando suas aulas de dança.

Conheci o Denilto poeta, o artista do corpo nos palcos, o artista no cotidiano, e, principalmente, sua maestria nas aulas de dança. O que me marcou profundamente. Nunca mais fiz outras aulas de dança depois de sua morte.

Suas aulas transbordavam um universo imaginário imensurável que se transformava em grandes improvisos conjuntos. Havia sua maneira peculiar em transmitir os ensinamentos da Dança Expressiva de Laban via ensinamentos de Maria Duchenes.

Em “Safara – Ciranda para uma lua e meia” criação de Denilto em 1992, com um elenco no qual me incluo, tinha como uma segunda meta preparar este elenco de dançarinos para compor um projeto maior sob direção de Takao. Era parte de um sonho que se concretizaria com a volta do casal, Takao e Felicia, do Japão.

Então este grupo mergulhou no sonho de Denilto. Em “Sáfara”, morte e vida andavam juntas: um cenário composto por fardos de alfafa que exalava grama cortada, ossos de boi como adereços cênicos e música da nossa terra, infância e memória criada pelo músico Suba. Denilto utilizou-se do conceito ma, de tempo e espaço, onde o tempo no movimento foi dilatado ao máximo, a contenção de energia do corpo no não-movimento, as quedas e sustentações do corpo, tudo foi realizado de modo drástico, sem concessões. E isto tudo ficou gravado em meu corpo, de uma maneira bruta carregada de fortes emoções.

Na memória fica a admiração de um criador ímpar e grande intérprete da dança, o privilégio deste inesquecível encontro e a continuidade que dou as estes princípios sob novos olhares.

Assista a um trecho de “Sáfara”